"Epitáfio.
Me arrependo de não ter falado “Eu te amo”, para o Huck.
Demorei um pouco para perceber como o mundo é obtuso. Geralmente eu observava o vai-e-vem das pessoas, sempre na mesma rotina.
A vizinha ia a padaria, o padeiro jogava aquele “charme”, a patricinha saindo na chuva toda arrumadinha, o cachorro do moleque latindo com as outras crianças, o advogado com seu carrão importado, a esposa metida, a adolescente rebelde, o jovem viciado, o político corrupto, a empregada destratada. O marido adúltero, e por aí vai.
Todas as manhãs, exatamente ás 5:30, eu acordava, fazia meu café, lia meu jornal do mês passado, e depois ia comprar o pão que eu nunca iria comer. Nunca fui solitário, eu tinha um cão. Tinha, ele morreu antes que eu pudesse dizer que o amava. Era um bom amigo. Gostava de dormir durante a tarde. As vizinhas ordinárias, sentavam na minha calçada, e começavam a falar sobre novelas, homens que elas nunca iriam pegar, e sobre chá. Embora, gostasse de ouvi-las, eu odiava quando elas começavam a falar em chá. Geralmente a noite, eu ia assistir as novelas. (Por curiosidade) e depois fazia chá. Apesar de detestar. Ás 5:30 da manhã, começava tudo outra vez. ”Jornais, crianças, velhas, novelas, chá.” Apesar de me achar completamente desnecessário para a sociedade, gostava de estar ali, eu era incômodo, as pessoas tinham medo da minha casa, com exceção das velhas, é claro. Eu não falava muito, na verdade eu não falava nada, isso não quer dizer que eu não cometia a demência de chamar por um nome ausente dentro da minha casa. Tive minhas epifanias, eu gostava de cruzadinhas. Isso explica o fato de ler sempre os jornais atrasados. Também colecionava cards, pagava doces aos moleques, eles me davam aqueles cards coloridos, era minha paixão. Minha segunda paixão, a primeira era o meu cão. Também tive algumas utopias. Sonhava com aquela mulher gostosa, de olhos azuis e corpo escultural, aquela que o advogado, o padeiro, o corno , o jovem viciado e até as velhas falavam sempre. Via ela nos filmes. O que me faz lembrar, que eu odiava filmes. Ficção nunca foi algo bom, aliena os jovens. Sempre gostei mais de livros, não livros finos, gostava daqueles com suas 500 e tantas páginas, cada uma com frases insanas, estúpidas, ou coisas poéticas. Embora poucas pessoas tenham ido na minha casa, ou passado tempo o suficiente lá para observar-me, eu era organizado. Cada disco velho no lugar certo, cada pedaço de cruzadinha dentro de uma caixinha, sempre comprava flores, ou melhor, negociava com os moleques, e deixava minha casa sempre limpa. Mesmo não saindo muito de casa, ou vendo jornais atualizados, eu conhecia muito sobre a sociedade. Nunca mudou, desde o meu tempo de criança. Pessoas sempre com suas próprias prioridades, seus próprios mundos dentro de si mesmos, e seus amores. Conhecia cada pessoa da minha vizinhança, apenas olhado para eles todos os dias, da janela da sala. Ainda tive tempo para minhas paixões, me apaixonei pela vizinha, pela patricinha, e pela esposa metida. Sem falar nas gostosas da novela. Cá entre nós, eu adorava novelas, e também via revistas pornos. Não tive uma vida ruim, meus vazios o filhote preenchia. Esqueci-me de ressaltar que ele salvou a minha vida, tantas e tantas vezes. Me trazendo todos os dias os jornais velhos, a caixinha com as cruzadinhas, e empurrando meus livros para perto do sofá. Mas, havia algo escrito na corrente que ele guardava no pescoço. ”Maria, eterno amor.” Não preciso falar sobre a Maria, embora tenha escrito tanto, eu nunca consigo escrever sobre ela, pensar muito tempo nela, ou ver ela nas outras pessoas, eu apenas sinto ela. Maria ganhou o Huck quando tínhamos acabado de nos casar, e morreu 2 meses depois. Ela era uma boa menina. Não me arrependo de nunca ter falado com as pessoas por muito tempo, não me arrependo de ter visto a vida passar apenas da janela da sala. Me arrependo de não ter falado ”Eu te amo”, para o Huck.
Rio De Janeiro - 1937- 2000.
“Não chegamos a saber o nome dele. Ele era um bom homem, acho que ele amava a vida, mas ela morreu tão cedo.” - Velhas."
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